Elcio Augusto Antoniazi
Diretor Segundo Tesoureiro da ABAMACK

No último mês acompanhamos em nosso país uma grande mobilização da população, impulsionada pela insatisfação dos paulistanos com o aumento de R$ 0,20 centavos na tarifa do transporte público. No entanto, o que aparentemente fortaleceu, mesmo, os protestos, foi a total falta de habilidade das autoridades em lidar com a questão, que em uma noite de quinta-feira, dia 13 de junho de 2013, abusou da violência para tentar conter as manifestações, ferindo e prendendo pessoas que se manifestavam pacificamente e membros da imprensa, que registravam o ocorrido.

O excesso de violência empregado pelos policiais, e a série de prisões arbitrárias atraíram a atenção de muita gente, não apenas no Brasil como também no exterior. A anistia internacional chegou a emitir nota oficial em que se declarava preocupada com a reação das autoridades e com a “radicalização da repressão e a prisão de jornalistas e manifestantes, em alguns casos enquadrados no crime de formação de quadrilha“.

A reação desastrada das autoridades policiais de São Paulo acabou fazendo com que, até mesmo as pessoas que não estavam muito preocupadas com as manifestações, resolvessem se mobilizar para protestar. E naquele momento, como dito em uma espécie de “mantra” pelos que iam às ruas, não era mais “só pelos 20 centavos”.

Então, na segunda-feira dia 17 de junho de 2013, milhares (ou milhões, pois os números das autoridades e dos institutos de pesquisas são muito diferentes) de paulistanos começaram, às 17:00hs, a tomar as ruas da capital paulista em um movimento organizado, em que o grito mais ouvido era “sem violência”. Neste dia, a orientação do Secretário de Segurança Pública de São Paulo, até mesmo por conta da repercussão negativa do trabalho da polícia durante a quinta-feira, era para que os policiais nas ruas apenas acompanhassem as manifestações, sem tentar dispersá-las. Foram proibidos de usar balas de borracha e gás pimenta.

Sem a polícia atuando de forma repressiva, de forma a inibir os manifestantes, muitas pessoas foram se juntando àqueles que já desfilavam pelas ruas, atendendo aos chamados de “vem pra rua, vem!”, entoados ao longo de toda a manifestação. E este movimento, que era acompanhado em tempo real pela imprensa, e principalmente graças à força da internet, foi chamando cada vez mais a atenção em todo o país. Em pouco tempo, foram às ruas a população de Brasília, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte, Florianópolis, Porto Alegre, Cuiabá, etc… Não apenas capitais, mas muitas cidades do interior do país também foram marcadas por protestos diversos naquele dia 17, que ficou marcado por poucos e isolados episódios de violência, e uma enorme demonstração de “vontade de mudança” da população.

Nos dias que se seguiram, as manifestações continuaram em todo o país, forçando as autoridades a tomarem medidas que pudessem, ao menos, acalmar as multidões que iam as ruas. A primeira demonstração visível de que as manifestações haviam surtido algum efeito, veio em declaração conjunta do prefeito da Cidade de São Paulo e do Governador do Estado de São Paulo, Fernando Haddad (PT-SP) e Geraldo Alckmin (PSDB-SP) respectivamente, dizendo que voltariam as tarifas do transporte público aos valores anteriores ao reajuste. Apesar de não ter sido o primeiro lugar em que foram anunciadas as reduções nas tarifas, o fato em São Paulo era simbólico, pois foi dali que efetivamente o movimento acabou ganhando força.

Com o anúncio feito, o “pleito centralizador”, que era o aumento da tarifa dos transportes públicos, estava superado em São Paulo. Apesar disto, as pessoas continuavam querendo ir às ruas pois, afinal, não era “apenas por R$ 0,20”. No entanto, com a falta de um mote central, aquele movimento todo foi começando a parecer “anencéfalo”, e disperso. Afinal, eram muitos os pleitos da população, mas nenhum forte o suficiente para unir a todos. E com isto foram se tornando cada vez menores os atos em São Paulo.

Em outras cidades, no entanto, o movimento continuava forte, em especial nas cidades que sediavam a Copa das Confederações no Brasil naquele período, quais sejam, Fortaleza, Rio de Janeiro, Salvador e, onde ocorreram mais episódios de violência, Belo Horizonte. As manifestações acabaram ganhando uma vitrine internacional muito ampla, graças à atenção da mídia para o evento da FIFA que acontecia simultaneamente. Era, de certa forma, muito simbólico a população do Brasil, país que tradicionalmente “respira futebol”, indo às ruas entoando o coro de “Da copa eu abro mão, quero dinheiro para a saúde e para educação”.  Mas ainda assim, os pleitos continuavam muito diversificados, como grupos contra a aprovação das PECs 33 e 37, grupos pedindo a destituição do Pastor Marcos Feliciano da Comissão de Direitos Humanos, entre outros pleitos, alguns até mesmo “juridicamente impossíveis”.

Diante de tamanha mobilização nacional, e após o anúncio da redução das tarifas do transporte público em todo o país, também veio a público a Presidenta da República, Dilma Rousseff (PT), em rede nacional de rádio e televisão, para dizer que estava atenta ao clamor popular por mudanças, e que iria realizar estudos e conversas com prefeitos e governadores, para que os pedidos das ruas fossem ouvidos. Prometeu ainda a realização de um plebiscito, a fim de consultar a população sobre quais suas necessidades e prioridades. Discurso que, depois, se mostrou feito sem muito preparo, uma vez que nem mesmo entre os integrantes do governo havia um consenso sobre a legalidade desta solução.

Nos dias que se seguiram, algumas “respostas” foram dadas à população, como a rejeição quase unânime à PEC 37 que, dias antes, imaginava-se que seria aprovada por este quórum. Outras propostas foram votadas em velocidade recorde, como nunca antes visto em nosso congresso.

Esta sucessão de “respostas” apresentadas pelos governantes, surtiu efeito, e a população começou a se acalmar. As manifestações começaram a diminuir de tamanho, até que se tornaram novamente pequenos grupos isolados. A ideia do plebiscito, já foi descartada. Agora fala-se em, quando muito, um referendo. Talvez até seja mesmo a melhor solução. Mas não é este o ponto.

Partindo agora à visão que justifica o título deste texto, o povo brasileiro mostrou (e ao mesmo tempo conheceu) a força que tem. Conseguiu pressionar as autoridades a atenderem certos pleitos seus, deixando claro que não aceitariam ser, mais uma vez, tratados apenas como fonte de votos e recursos.

No entanto, a grande conclusão que pude chegar foi: O Brasileiro mostrou sua força e capacidade de mobilização em torno de um ideal comum, mas ao mesmo tempo demonstrou uma dificuldade em sintetizar seus problemas, para buscar soluções efetivas. Bateu apenas em questões pontuais. Diante deste cenário, a classe política mostrou respostas agindo pontualmente, nas questões de maior apelo popular, para “desarticular” as manifestações. Feito isto, e acalmados os ânimos, parecem estar confiando e esperando que a população se “distraia” e esqueça que ainda há muito para mudar.

A população, por sua vez, em sua maioria parece não saber exatamente o que espera como resposta às manifestações, e por isto mesmo tem dificuldade em cobrar. Tomara que, como lição, ao menos consigam entender que os políticos são apenas nossos representantes, mas o que constrói e sustenta o Estado é seu povo, e que a maior manifestação que pode e deve ser feita, está se aproximando, e ocorre nas urnas. Em 2014 teremos a oportunidade de votar melhor e mais consciente. E, depois de votar, devemos acompanhar o trabalho dos eleitos, ainda que não sejam os que receberam nosso voto. Afinal, representam a todos igualmente.

Sem esta atitude, seremos apenas um gigante, não mais adormecido, mas ainda desorientado.